sábado, 2 de outubro de 2010

A vida em surdina – David Lodge

Sinopse

Quando decide pedir a reforma antecipada, o professor universitário Desmond Bates nunca pensou vir a sentir saudades da azáfama das aulas. A verdade é que a monotonia do dia-a-dia não o satisfaz. Para tal contribui também o facto de a carreira da sua mulher, Winifred, ir de vento em popa, reduzindo o papel de Desmond ao de mero acompanhante e dono de casa. Mas o que o aborrece verdadeiramente é a sua crescente perda de audição, fonte constante de atrito doméstico e constrangimento social. Desmond apercebe-se de que, na imaginação das pessoas, a surdez é cómica, enquanto a cegueira é trágica, mas para o surdo é tudo menos uma brincadeira. Contudo, vai ser a sua surdez que o levará a envolver-se, inadvertidamente, com uma jovem cujo comportamento imprevisível e irresponsável ameaça desestabilizar por completo a sua vida.

O autor

David Lodge nasceu em Londres em 1935. Estudou Literatura Inglesa, de que foi professor na Universidade de Birmingham entre 1960 e 1987, altura em que se retirou do ensino para se dedicar inteiramente à escrita. Actualmente continua a viver em Birmingham.
Entre os romances de sua autoria incluem-se "Notícias do Paraíso" e "Terapia", também publicados pela Gradiva. Além de ter escrito romances, David Lodge foi autor de várias obras importantes de ensaio na área da literatura, sendo ainda autor de séries de televisão, entre as quais da adaptação de "Um Almoço Nunca é de Graça", que ganhou o prémio para a Melhor Série de Televisão de 1989 da Royal Television Society.

Críticas de imprensa

Um dos melhores romances do ano segundo a revista Lire. Finalista do Commonwealth Writers’ Prize 2009.

A minha opinião

O romance de David Lodge conta a história de um professor universitário reformado (Desmond Bates) que se debate com problemas de solidão. Como preencher os tempos desocupados, a falta de energia para levar em frente projectos adiados, a percepção de que ficaram para trás ideias e vontades sonhadas e a agravante de uma vida encerrada em silêncios provocada pela surdez precoce.
Um romance extraordinariamente bem construído que apela a pensar sobre a deficiência da surdez, as dificuldades, o afastamento e o isolamento que quem enfrenta este problema.
Desmond Bates sente que a sua vida pode ganhar um novo vigor a partir do momento em que existe a possibilidade de ajudar Alex Loom, uma bonita estudante, na sua tese de graduação. A introdução desta personagem feminina trouxe ao romance um cariz mais inquietante e fiquei com alguma pena que não tenha sido mais explorado, no entanto, e tendo em conta que a base do romance acenta na família e nas suas múltiplas facetas e relações, bem como os problemas e implicações que a surdez provoca, leva a concluir uma fantástica visão da vida.
Ressalto a extraordinária personagem do pai de Desmond Bates que provoca situações hilariantes, descontrai a leitura e me leva a apontar como minha favorita.

Há uma parte do romance em que é feita referência ao campo de concentração de Auschwitz e de Birkenau aquando de uma visita de Desmond ao mesmo. Nunca é demais fazermos referência às atrocidades cometidas e talvez aqui esteja muito do autor e das experiências vividas, sem dúvida um inferno obrigatório de visitar.
“Apesar de termos tido vários desentendimentos sem importância na nossa vida, vejo agora que não soubemos dar valor ao tempo de que dispunhamos.” Relato feito por uma das vítimas de Auschwitz que deixa escrita e enterrada uma carta à sua mulher.

Como conclusão posso dizer que é um livro que nos fala da vida e da família, das relações e dos valores. É também um livro de despedida, um hino ao caminho que percorremos que culmina com a morte e a tristeza da fragilidade do laço que nos liga à vida e, sobretudo a facilidade com que as marcas que deixamos na terra são apagadas.

“Para mim, a maneira como as pessoas tratam os livros é uma mostra do seu comportamento cívico” Desmond Bates

2 comentários:

Elphaba J. disse...

O livro parece ser muito bom, em mim pelo menos, a tua opinião despertou bastante a curiosidade.

djamb disse...

Não conhecia este livro, obrigada pela partilha! Deve ser muito bom.

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